Se a tecnologia 5G já representa uma revolução em conectividade, a chegada do 6G promete redefinir a forma como interagimos com o mundo digital e o espaço urbano. A nova geração deve alcançar velocidades até 100 vezes superiores às do 5G, com latência quase zero e capacidade para conectar bilhões de dispositivos simultaneamente.
Entre as inovações que o 6G deve impulsionar estão a integração total entre eletrodomésticos e internet, a realização de cirurgias médicas remotas com precisão milimétrica e o avanço de fábricas inteligentes operadas por dispositivos autônomos.
Mas, calma! Nem tudo são flores.
Com o salto na conectividade também crescem as vulnerabilidades. A superfície de ataque se expande na mesma proporção da conectividade proporcionada pela rede. Dados sensíveis circularão por milhões de dispositivos, bordas computacionais e redes autônomas, aumentando os riscos de violações da privacidade de usuários, ataques massivos de negação de serviço (DDoS), controle remoto de dispositivos, entre outros.
Devido à maior integração do mundo físico com o digital, viabilizada pelas conexões 6G, as ameaças deixam de ter um caráter essencialmente técnico, podendo atingir diretamente as infraestruturas críticas das cidades, com grandes possibilidades de interrupção de serviços de energia elétrica, transportes, comunicações, etc.
A preocupação com os ciberataques no modelo 6G se deve principalmente à incorporação de tecnologias avançadas, como inteligência artificial, blockchain e computação quântica, ao arsenal dos criminosos virtuais, agregando perigos sem precedentes às investidas:
- Inteligência artificial: Hackers podem explorar a maior integração entre dispositivos para inserir dados falsos e treinar algoritmos de forma maliciosa, corrompendo decisões automáticas – como em diagnósticos médicos ou sistemas de tráfego. Além disso, a detecção de ataques que utilizam IA em 6G é muito mais difícil, por conta da alta velocidade e autonomia proporcionada.
- Computação quântica: Se usada por cibercriminosos, a computação quântica pode quebrar sistemas de criptografia tradicionais quase que instantaneamente (leia mais aqui). Em conjunto com a conectividade 6G, isso permitiria ataques coordenados e em larga escala, com invasões quase impossíveis de conter em tempo real.
- Blockchain: Apesar de seguro, o blockchain pode ser explorado via ataques à infraestrutura de rede 6G (por exemplo, controle de nós falsos ou roubo de chaves privadas em dispositivos conectados). A comunicação massiva e instantânea no 6G pode facilitar ataques de maioria (51%), evidenciando as vulnerabilidades em redes menores.
Ataques de maioria (consenso) é um conceito clássico em blockchains: se um agente (ou grupo) controla mais de 50% do poder de mineração ou da participação, esse agente pode, entre outras ações, impedir que determinados blocos ou transações sejam confirmadas por outros nós, facilitando que um nó controlador domine com mais eficiência (veja mais aqui).
Investimentos e avanços da cibersegurança na era 6G
Para que a sociedade possa desfrutar os benefícios da nova tecnologia em suas mais diversas aplicações, é essencial a implementação de medidas avançadas de cibersegurança.
Paulo Sergio Melo de Carvalho, general da reserva do Exército e consultor do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), em entrevista para o jornal Valor Econômico, destaca avanços na proteção ao ambiente digital, como o blockchain para login seguro, usado na rede para criar identidades virtuais à prova de falsificação. Além de criptografia reforçada com algoritmos que protegem dados contra invasores.
Com o aumento da conectividade e a incorporação de múltiplos dispositivos com acesso às redes, o princípio ‘zero trust’ (confiança zero) é defendido por analistas, com foco em reforçar a segurança dos ecossistemas. A medida tem como base a premissa de que nenhum recurso ou dispositivo, mesmo que esteja dentro de uma organização ou residência, é confiável por padrão e necessita de verificação para cada acesso.
“O princípio ‘Zero Trust’ deixa de ser apenas uma boa prática para se tornar a pedra angular da cibersegurança. Acessos, dispositivos e ações devem ser verificados, autenticados e autorizados. Somente assim podemos garantir que a velocidade e a escala do 6G não sejam convertidas em vulnerabilidades”, pontua Marcelo Branquinho, CEO da TI Safe.
Edge IA
A inteligência artificial na borda da rede – Edge IA – é considerada uma das principais ferramentas de cibersegurança em conexões 6G. Isso porque, na nova rede, o processamento de dados deixa de depender totalmente da nuvem e passa a ocorrer na borda da rede – ou seja, mais próximo de onde os dados são gerados (em sensores, câmeras, dispositivos IoT, sistemas industriais, etc.).
Sendo assim, com IA na borda, anomalias e comportamentos suspeitos, tais como acessos incomuns, tentativas de intrusão, variações em padrões de tráfego, podem ser detectados em tempo real e no próprio dispositivo, permitindo respostas automáticas e instantâneas, mitigando o impacto de ataques.
Previsão de lançamento das redes 6G
A sexta geração das redes móveis, que vai muito além de uma rede de celular – uma vez que está sendo projetada para integrar comunicação, computação e inteligência artificial de forma nativa -, está prevista para operar comercialmente por volta de 2030.
De acordo com informações divulgadas pela Ericsson, uma das empresas que lideram as pesquisas sobre o tema, os estudos para a comercialização das redes 6G estão em fase de aplicação e as organizações devem se preparar desde já para os impactos que essa nova forma de conectividade trará.
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