Somente em 2023, o Brasil sofreu mais de 60 milhões de tentativas de ataques cibernéticos.
Quem se lembra do apagão cibernético que afetou sistemas em escala global no dia 19 de julho deste ano? O problema, causado por uma falha de atualização de uma plataforma largamente usada, foi rapidamente detectado e tratado, mas cerca de 8,5 milhões de aparelhos corporativos dos mais diversos segmentos (hospitais, bancos, aeroportos, etc.) ficaram indisponíveis por um tempo.
Embora não haja indícios de falhas na segurança cibernética nesse caso, os efeitos do incidente reforçam o quanto somos dependentes da tecnologia, o quanto estamos interconectados e como ela é essencial na rotina de milhões de pessoas. Também alertam para impactos e estragos que problemas cibernéticos podem causar.
Para se ter uma ideia, em 2023, o Brasil foi alvo de mais de 60 bilhões de tentativas de ataques cibernéticos – segundo dados do FortGuard Labs. México, Brasil e Colômbia estão entre os países com maior incidência.
Menos incidentes, mais sofisticação
O número de ataques cibernéticos de 2023 é menor do que o registrado em 2022 (103 bilhões). Porém, contém agravantes: há um aumento nas variantes de malwares e ransomwares, bem como em sua complexidade. Os ataques possuem direcionamentos específicos, sendo mais sofisticados e representando um risco maior para empresas que não estejam preparadas e com suas defesas cibernéticas integradas e atualizadas.
Brasil precisa avançar no campo da cibersegurança
No início de agosto, o INCC (Instituto Nacional de Combate ao Cibercrime) divulgou um relatório que apresenta um cenário de riscos digitais aos quais pessoas, empresas e organizações governamentais brasileiras estão expostas, bem como medidas que podem ajudar a combater as ameaças.
De acordo com o relatório, 84% das companhias consideram a cibersegurança muito importante. Porém, 23% não dão prioridade ao tema em seus orçamentos e somente 35% têm um setor de segurança cibernética em seu organograma.
Já o estudo Worldwide Black Book 2023, da IDC, mostrou que o Brasil é um dos países que precisam aumentar seus investimentos em cibersegurança. Os gastos estimados de empresas no país, em 2023, nesse campo, ficaram em torno de 3,5% dos investimentos totais em tecnologia da informação, o que é considerado um valor insuficiente.
Esses apontamentos são preocupantes, especialmente quando segurança e crimes cibernéticos estão listados entre os dez maiores riscos globais até 2025, de acordo com o Fórum Econômico Mundial. Mas apontam um caminho: a segurança cibernética precisa ser parte da estratégia de negócios das organizações.
Custos com a falta de segurança cibernética
Dados da Sophos, companhia britânica de hardwares e softwares de segurança, mostram que 83% das empresas brasileiras que sofreram ataques por ransomware pagaram resgate para reaver suas informações.
A principal porta de entrada desses ataques por ransomware, destacada por 49% das empresas brasileiras, é a exploração de vulnerabilidades. Um percentual acima da média mundial, que é de 32%.
O estudo da Sophos apontou ainda que a recuperação, caso o ataque tenha sido oriundo de exploração de vulnerabilidade, é mais crítica. Além de ser mais caro o processo de recuperação de informações (podendo chegar a US$ 3 milhões), o restabelecimento dos sistemas também é mais demorado, podendo passar de 30 dias.
Uma estimativa da RiskIQ, empresa americana de segurança cibernética, aponta que as organizações em geral perdem mais de US$ 22 mil por minuto devido a ataques por ransomware.
Já o Phishing continua sendo o ataque cibernético mais comum, de acordo com a RiskIQ. Cerca de 3,4 bilhões de e-mails foram enviados diariamente em 2022 com esse objetivo. E o mais preocupante: 75% dos ataques cibernéticos começam com um e-mail.
Nesse sentido, além das medidas técnicas e ferramentas de proteção necessárias para garantir a segurança cibernética de sistemas e operações, o treinamento constante dos usuários e a conscientização a respeito das ameaças e riscos é parte fundamental do trabalho das organizações que querem proteger seus negócios.
CNCiber irá orientar a atividade de cibersegurança no Brasil
O decreto 11.856/2023 instituiu, em dezembro de 2023, o Comitê Nacional de Cibersegurança (CNCiber), como responsável por acompanhar a implementação da Política Nacional de Cibersegurança (PNCiber), bem como orientar as atividades de segurança cibernética no Brasil.
A criação do CNCiber é um passo importante para o país. Além de representar uma estrutura multidisciplinar para a gestão da temática envolvendo cibersegurança no Brasil, ele tem objetivos essenciais, entre eles:
- Promover o desenvolvimento de produtos, serviços e tecnologias de caráter nacional destinados à segurança cibernética;
- Garantir a confidencialidade, a integridade, a autenticidade e a disponibilidade de soluções;
- Contribuir para o combate aos crimes cibernéticos e às demais ações maliciosas no ciberespaço;
- Estimular a adoção de medidas de proteção cibernética e de gestão de riscos para prevenir, evitar, mitigar, diminuir e neutralizar vulnerabilidades, incidentes e ataques cibernéticos, e seus impactos;
- Incrementar a resiliência das organizações públicas e privadas a incidentes e ataques cibernéticos;
- Implementar estratégias de colaboração para desenvolver a cooperação internacional em segurança cibernética;
- Entre outros.
Já foram realizadas duas reuniões do CNCiber. A primeira delas, em março, teve como objetivo debater o regimento interno e estabelecer grupos de trabalho. Na segunda, realizada em junho, foram escolhidos alguns membros da sociedade civil para compor o Comitê, além do acompanhamento das atividades das equipes.