Como medir o comprometimento global contra as ameaças digitais? Como saber quais países são referência em cibersegurança? O Índice Global de Cibersegurança (GCI), organizado pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), pode nos dar essas respostas.
O que é o Índice Global de Segurança?
O GCI é um relatório que avalia a adoção de medidas relacionadas à segurança cibernética nos seguintes pilares:
- Jurídico: Medidas legais que possibilitem aos Estados investigar, repreender e criminalizar atos de descumprimento ou violações de ordem cibernética, impondo as devidas sanções.
- Técnico: Capacidade técnica para detectar, proteger e responder de forma eficaz a riscos e ameaças cibernéticas, bem como medidas para recuperação em caso de ataques, garantindo as boas práticas de segurança cibernética.
- Organizacional: Gestão do cibercrime e desenvolvimento da cibersegurança por meio de instituições de coordenação, políticas e estratégias, com papéis, responsabilidades e obrigações institucionais formalmente definidos.
- Desenvolvimento de Capacidades: Medidas baseadas em campanhas de conscientização, estruturas para certificação e credenciamento de profissionais de segurança cibernética, cursos de formação profissional em segurança cibernética, programas de pesquisa e desenvolvimento, entre outras ações que promovam o desenvolvimento de competências na área de cibersegurança.
- Cooperação: Existência de parcerias, quadros de cooperação e redes de compartilhamento de informações, permitindo o desenvolvimento de capacidades de segurança cibernética mais robustas.
A quinta edição do Índice foi divulgada no final de 2024 e contou com 194 países participantes. Eles responderam a 83 perguntas, que resultaram em 20 indicadores. A pontuação média global aumentou 27% (desde a última edição), significando que as nações estão avançando em seus esforços para aumentar o nível de cibersegurança em seus territórios digitais.
Dos 194 países, 46 deles foram classificados como países-modelo (T1), ou seja, obtiveram pontuação geral entre 95 e 100, demonstrando um forte compromisso com a cibersegurança e a realização de ações que abrangem a avaliação, o estabelecimento e a implementação de medidas para prevenir e mitigar ameaças cibernéticas. Entre eles estão Reino Unido, Finlândia, Alemanha, Egito, Estados Unidos, Emirados Árabes, Índia, Japão e Brasil, que está na 18ª colocação, sendo o único país da América do Sul no T1.
As demais nações foram classificadas em T2 (avançando), T3 (estabelecendo), T4 (em evolução) e T5 (em construção).
Como fazer a diferença
De acordo com o GCI, os países mais bem avaliados no relatório evidenciam medidas mais robustas em cada um dos cinco pilares investigados.
Legislação
Nos países T1, as medidas legais recebem destaque por serem consideradas o pilar mais forte, desde a proteção de dados pessoais e de privacidade, regulamentações para infraestruturas críticas, bem como sanções para atividades ilegais no ambiente online. A legislação dessas nações também se mostra mais alinhada com as diretrizes de tratados internacionais.
Tecnologia
Soluções tecnológicas, somadas a profissionais qualificados, processos e procedimentos bem documentados, representam um papel fundamental para defesa contra agentes maliciosos. Esse conjunto de medidas contribui fortemente para que os países possam prevenir, proteger e responder de forma eficaz a violações de segurança cibernética.
Neste sentido, contar com ferramentas baseadas em tecnologias como inteligência artificial (IA) e machine learning (ML), biometria comportamental, arquitetura zero trust, blockchain, computação quântica, segurança em nuvem e segurança de IoT, bem como equipes capacitadas para detecção e resposta a incidentes cibernéticos é uma das medidas técnicas comuns em países T1.
Outro ponto de destaque é a realização de eventos de simulação de ataques cibernéticos, reunindo especialistas e entusiastas para compartilhar conhecimento e desenvolver soluções em cibersegurança.
A criação e implementação de normas, padrões e protocolos para estruturar as iniciativas, equipes e tecnologias de segurança cibernética também figura entre as melhores práticas adotadas pelos países.
Papéis e responsabilidades
Ao assegurar objetivos estratégicos de cibersegurança claros, com um plano abrangente que define papéis, planos de ação, monitoramento e mensuração, muitas nações têm feito progressos na proteção contra ameaças cibernéticas.
Neste item, a implementação de estratégias nacionais de segurança cibernética, bem como estruturas que permitam adotar padrões de cibersegurança, são essenciais. Dessa forma, ficam claras as parcerias e responsabilidades, possibilitando um trabalho coordenado conjunto entre indústria, sociedade civil e especialistas, garantindo um ecossistema mais seguro.
É fundamental também que os países contem com uma agência, entidade ou instituição responsável pela infraestrutura crítica da informação, unindo profissionais qualificados para implantar os padrões de segurança cibernética vigentes.
Capacitação
No que tange ao desenvolvimento de capacidades, é fundamental o direcionamento de esforços e recursos para treinamento (atuando diretamente na formação de profissionais especializados) e conscientização (ajudando a formar uma cultura forte de cibersegurança), contribuindo para a construção de um ambiente digital mais seguro.
Ainda, um braço forte de pesquisa e desenvolvimento (P&D), seja por meio do setor privado, público ou instituições acadêmicas, também é parte essencial para o desenvolvimento da capacidade de cibersegurança de uma nação. Os três países que mais depositam patentes na área de segurança cibernética são China, Estados Unidos e Coreia do Sul. O Brasil ocupa a 16ª posição.
Cooperação
O desafio da cibersegurança é complexo, exigindo uma abordagem multissetorial e de cooperação entre entidades públicas e privadas. Como prática, os países têm se unido, nas últimas décadas, seja em colaboração doméstica ou em acordos regionais e internacionais de segurança cibernética.
Exemplos disso são a Convenção de Budapeste sobre Cibercrime, que entrou em vigor em 2004, o Acordo da Comunidade de Estados Independentes sobre Cooperação na Luta contra Crimes no Campo das Tecnologias da Informação (Acordo de Dushanbe), que entrou em vigor em 2020, e a Convenção da União Africana sobre Cibersegurança e Proteção de Dados Pessoais (Convenção de Malabo), que entrou em vigor em 2023, além de outros acordos internacionais, regionais e setoriais em torno da cibersegurança.
Essa colaboração possibilita compartilhar insights e expertise para aprimorar a cibersegurança, mas também para gerar um maior entendimento do cenário cibernético em constante evolução, especialmente pela crescente adoção da inteligência artificial no aprimoramento de ameaças digitais.
O que o Brasil tem feito
No final de 2023, foi aprovada no Brasil a Política Nacional de Cibersegurança (PNCiber) e criado o Comitê Nacional de Cibersegurança (CNCiber), pelo Decreto nº 11.856, de 26 de dezembro de 2023.
A PNCiber, primeira política nacional específica de segurança cibernética, tem a finalidade de orientar a atividade de segurança cibernética no Brasil, apresentando os princípios, objetivos e instrumentos para as ações. Por sua vez, o CNCiber visa acompanhar a implementação e a evolução da PNCiber.
Recentemente, o CNCiber instituiu grupos de trabalho para atuar na criação de duas medidas de segurança cibernética: a elaboração de um Plano Nacional de Cibersegurança e a definição de requisitos mínimos de segurança cibernética para provedores e operadores de Serviços Essenciais e de Infraestrutura Críticas (SEICS).
No quesito boas práticas, o Brasil também possui suas iniciativas, a exemplo da RNP (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa), entidade que conecta universidades e institutos de ensino e pesquisa com internet e serviços seguros. A RNP trabalha em conjunto com alunos, professores e pesquisadores para desenvolver novos projetos na área de tecnologia, com foco em inovação contínua e fortalecimento da segurança digital do país.
Um deles é o programa de capacitação em cibersegurança: Hackers do Bem. A iniciativa busca enfrentar o déficit de profissionais na área e tem como meta formar 30 mil novos profissionais até o final de 2025.
Desafios
O Brasil está avançando rumo a uma maior maturidade cibernética. Mas é preciso continuar. O nível de sofisticação das ameaças cibernéticas está em constante evolução. Além da rápida transformação tecnológica, a diversidade dos agentes maliciosos e o aumento da superfície de ataques, promovidos pela digitalização acelerada, tornam o cenário da cibersegurança cada vez mais complexo.
Nesse sentido, é necessária uma abordagem abrangente, envolvendo pessoas, processos e tecnologias. Na TI Safe, esses pilares atuam de forma integrada, fortalecendo a resiliência e elevando o nível de maturidade cibernética.
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