A preocupação das autoridades é relacionada a ataques hackers a infraestruturas digitais e à comunicação.
A edição de 2024 das Olimpíadas, sediadas em Paris, na França, está chegando ao fim sem intercorrências no que tange à cibersegurança do evento. Para que isso fosse possível, houve esforços e preparação do comitê organizador quanto à segurança cibernética dos jogos olímpicos.
Você deve estar se perguntando qual a relação entre uma competição esportiva e possíveis interesses de ataques hackers. Nós vamos explicar.
A primeira edição das Olimpíadas nos moldes modernos aconteceu em 1896. Há 128 anos as preocupações dos organizadores certamente não eram possíveis ataques cibernéticos. Porém, de acordo com o histórico das últimas competições, o comitê organizador precisou estar preparado não somente para coordenar os jogos, mas também para se proteger de ciberataques.
Entre as ações preventivas, trabalhou junto com “hackers éticos” para testar seus sistemas antes e durante as competições. Também utilizou inteligência artificial para auxiliar na detecção e triagem de ameaças. Ainda, manteve um centro de operações de cibersegurança ativo no decorrer dos jogos, em um local secreto, para assegurar o bom andamento desta edição das olimpíadas.
Tentativas de ataque estão previstas durante os Jogos Olímpicos
O Comitê Organizador Paris 2024 atuou em parceria com a Agência Nacional Francesa para Segurança da Informação (ANSSI), além de duas empresas especializadas, para prevenir e minimizar impactos de possíveis ataques hackers durante as competições, garantindo a segurança cibernética dos Jogos Olímpicos.
Autoridades francesas disseram que não há como ter uma edição livre de ciberameaças. De acordo com Thiago Branquinho, CTO da TI Safe, atuou na gerência da equipe de planejamento de segurança cibernética da Copa do Mundo do Brasil, em 2014, há muitos pontos de entrada para possíveis ataques. “Temos as pessoas nos locais dos jogos, que consomem produtos e precisam de um sistema financeiro online. Temos celulares de torcedores do mundo todo utilizando as redes 5G para transmitir o que estão presenciando. Temos o planejamento do trajeto dos atletas, que, em caso de vazamento, pode gerar interesse de pessoas mal intencionadas para ataques físicos às delegações. Há a possibilidade de fraude no sistema de tickets. Há informações confidenciais de atletas e espectadores, que precisam ser preservadas. Enfim, há inúmeras outras situações que podem abrir brecha para um eventual ataque”.
O número de ataques esperados na edição de Paris deve ser 10 vezes maior do que em Tóquio, durante as Olimpíadas de 2021 (edição 2020 – realizada um ano depois dada a pandemia de Covid-19). Lá, foram registradas mais de 450 milhões de tentativas de invasão. Em Londres, durante os Jogos de 2012, o número foi ainda mais assustador: 2,3 bilhões de ameaças cibernéticas desafiaram as equipes de segurança.
As Olimpíadas de Inverno, realizadas em 2018 em Pyeongchang, na China, também foram alvo de cerca de 600 milhões de ataques. Logo no início da competição, um deles foi bem-sucedido e quase atrapalhou a cerimônia de abertura. A rede Wi-Fi do evento e o aplicativo oficial dos jogos, disponível para smartphones, pararam de funcionar. Poucas horas depois, a ameaça foi neutralizada sem causar danos.
“Eventos como as Olimpíadas reúnem pessoas do mundo inteiro, entre organizadores, atletas, espectadores, imprensa, autoridades, etc. Logo, temos uma amplitude maior de potenciais alvos, bem como de potenciais pessoas mal intencionadas”, destacou Thiago.
Comunicação e transmissões são preocupações do comitê olímpico
Os Jogos Olímpicos de Paris estão acontecendo em meio a um cenário global instável, no qual conflitos como aqueles entre Rússia x Ucrânia e Israel x Hamas preocupam autoridades do mundo todo.
Nesse sentido, as equipes de segurança precisam estar preparadas para lidar com qualquer tipo de ameaça que possa interferir de alguma forma no bom andamento e na segurança de atletas, staff, torcedores, organização, bem como da população da cidade sede das olimpíadas.
Em Paris, o risco de ataques cibernéticos foi tema de grande destaque para a ANSSI. Em declaração à imprensa, o diretor geral da Agência, Vincent Strubel, disse que “os Jogos estão enfrentando um nível de ameaça sem precedentes, mas também fizemos uma quantidade sem precedentes de trabalho de preparação, então acho que estamos um passo à frente dos hackers”.
Entre os pontos de atenção das equipes de cibersegurança estão as infraestruturas digitais e a possibilidade de manobras no espaço que afetassem as comunicações e as transmissões televisivas dos Jogos. Entre os temores da organização está a possibilidade de hackers interferirem nos sinais de satélite para disseminar mensagens de ódio ou interromper a conexão à internet.
“O broadcasting é um dos pontos mais críticos de grandes eventos como as Olimpíadas. Preservar a capacidade de transmitir os jogos é a coisa mais preciosa desse tipo de competição”, enfatizou Thiago, ressaltando que os ataques aos sistemas de transmissão podem ser também físicos, com vandalismo a fibras, antenas, sistemas de energia elétrica, entre outros.
Outro motivo potencial, razão especialmente de ataques cibernéticos de ransomware, é o benefício financeiro. Esse tipo de invasão tem foco na cobrança de um resgate para devolução de dados roubados e criptografados. Caso hackers tenham sucesso em um evento da grandiosidade das Olimpíadas de Paris, a vantagem financeira é enorme.
Ataque cibernético à sede da competição olímpica
Um ataque de ransomware foi reportado no dia 06 de agosto pelas autoridades francesas. Os cibercriminosos atacaram o sistema central dos computadores do salão de exposições Grand Palais, local onde estão sendo realizadas as competições de algumas modalidades, como esgrima e taekwondo.
O incidente não causou interrupções nos eventos olímpicos. Porém, preocupa a polícia francesa de crimes cibernéticos, uma vez que o sistema contém informações gerenciais e dados sensíveis de 40 museus afiliados.