Investir em segurança cibernética e implementar boas práticas de governança é fundamental para proteger as operações e garantir a confiabilidade do setor de energia brasileiro. Especialmente em um cenário no qual o segmento é composto por sistemas complexos, críticos, muitas vezes legados, mas em crescente digitalização.
Essa temática foi abordada durante a apresentação da EDF Brasil, filial brasileira do Grupo francês Électricité de France, uma das maiores empresas de energia do mundo, durante a 5ª CLASS – Conferência Latino Americana de Segurança em SCADA, realizada nos dias 14, 15 e 16 de maio, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro (RJ). Você pode assistir ao vídeo completo da palestra em nosso canal do YouTube. Mas também pode conferir os destaques do Estudo de caso EDF e TI Safe: Fortalecendo a segurança das operações no setor elétrico, a seguir, nesse compilado que preparamos para você.
O início da jornada
“Hoje a questão não é mais se você já sofreu algum ataque, mas sim se você sabe ou não que foi atacado”, destacou Igor Freitas de Souza, gerente de TI da EDF Brasil, logo nos primeiros minutos de sua fala sobre a caminhada da empresa para fortalecer a segurança de suas operações.
Na EDF Brasil, assim como em muitas empresas do setor elétrico, o gatilho para a implementação da governança e para que a companhia reforçasse ainda mais segurança cibernética na TO foi a nova regulamentação da ONS no Brasil, a RO-CB.BR.01, e a resolução normativa nº 964 da ANEEL. A rotina da ONS estabelece controles mínimos de segurança cibernética a serem implementados nos centros de operação dos agentes e nos equipamentos de infraestrutura, a partir de julho de 2021, e a resolução 964 dispõe sobre a política de segurança cibernética a ser adotada pelos agentes do setor de energia elétrica (publicada em dezembro de 2021).
“Tradicionalmente, esse olhar mais voltado para a cibersegurança estava na TI. A maturidade na TO, por uma questão de histórico e de contexto, estava muito ligada à parte técnica, operacional e de disponibilidade. A TI cuidava do perímetro, da borda, isolava minimamente a parte da TO e todo mundo se sentia seguro. Só que as coisas evoluíram”, ressaltou Igor.
Nos últimos anos, infraestruturas críticas de todo o mundo foram experimentando um aumento das violações. Segundo o relatório X Force da IBM de 2023, o setor de energia ocupa o 3º lugar entre os mais visados para ataques cibernéticos no mundo. Um estudo global da TXOne Network, que analisou incidentes cibernéticos em infraestruturas críticas, mostrou que, em 2022, o setor de energia foi o que mais sofreu incidentes nas infraestruturas críticas.
Entre os motivos estão a complexidade dos sistemas, redes e soluções de tecnologias de informação (TI) e tecnologias operacionais (TO), o contexto de digitalização de atividades e a convergência entre TI e TO.
Outra grande preocupação relatada pelo gerente de TI é em relação aos ataques aprimorados com inteligência artificial, que elevam exponencialmente o poder de destruição das ciberameaças. “As pessoas ficam com medo da IA acabar com o seu emprego. Esse conceito é ultrapassado. O fato é que a IA, usada para fins maliciosos, tem potencial para encerrar os negócios e operações das empresas e, consequentemente, deixar muitas pessoas sem trabalho”, completou Igor, enfatizando ainda que “as dores do setor elétrico, comparando a nossa apresentação com a dos demais colegas, são as mesmas. Os problemas são semelhantes, os desafios e as preocupações, também”.

Governança em Cibersegurança Operacional na EDF Brasil
A implantação da governança em cibersegurança operacional fortaleceu a segurança nas infraestruturas de TO da EDF. Confira a seguir as etapas desse processo:
2021: A ONS lançou a rotina operacional RO-CB.BR-01 para proteção do ARCiber (Ambiente Regulado Cibernético) e, a ANEEL, a resolução normativa nº 964.
2022: Kick-off do projeto com a TI SAFE – de Governança de Cibersegurança Industrial e implementação da primeira onda, com reforço nos firewalls, monitoramento da TI Safe no ambiente da EDF, análise de risco, plano de segurança e a própria governança em si, que foi sendo aprimorada e aplicada durante o andamento do projeto.
2023: Segunda onda, com a implantação de novas tecnologias.
2024: Fase de melhoria contínua, com reforço de segurança física, CFTV, controle de acesso, políticas, entre outras.
Vinícius Felix da Silva, engenheiro de Automação e Controle da EDF Brasil, compartilhou como a companhia conduziu o processo de implantação de governança em TO. “A primeira vez que ouvi falar de governança em TO foi na CLASS 2022”, ressaltou. Entre os desafios, além do cenário e da maturidade do tema internamente, Vinicius destacou:
- Equipes reduzidas;
- Características das estruturas nas quais a governança precisava ser implementada, que eram totalmente diferentes;
- Sinergia entre EDF Brasil, TI Safe e a divisão de cibersegurança da EDF Internacional.
Para que o projeto de implementação de governança pudesse ter sucesso, a conscientização e o treinamento das equipes foi fundamental. “Se a pessoa não acredita que um ataque pode acontecer, ou que aquelas ameaças são reais, ela não dá valor aos procedimentos ou às tecnologias que implementamos”, enfatizou Vinícius. As capacitações, que são constantes na EDF, possibilitaram aos gestores colocar os procedimentos em prática e ampliaram o respeito e o conhecimento dos colaboradores sobre os riscos cibernéticos envolvidos nas operações. Mais de 100 pessoas já foram treinadas.
Os desafios referentes à arquitetura das plantas também exigiram da equipe do projeto ações específicas. “Nós temos a estrutura do norte Fluminense com 20 anos de operação e equipamentos extremamente legados. Temos SINOP, com 5 anos de operação, onde encontramos uma estrutura mais consolidada e definida, sendo mais tranquilo de fazer o trabalho. E temos também Marlim Azul, com 6 meses de operação, onde tudo é novo, mas ao mesmo tempo não temos todos os backups e documentos atualizados. Então foi necessário ir a campo e fazer todo um trabalho para aos poucos termos as documentações completas”, salientou Vinícius.
O último passo trabalhado na governança, de acordo com Vinícius, foi a sinergia entre EDF Brasil, TI Safe e EDF Internacional, por meio da divisão de cibersegurança. “Precisávamos estar alinhados em relação aos planos de segurança que temos que seguir ou, eventualmente, justificar e propor um novo plano quando a orientação não for aplicável em nossas infraestruturas e equipamentos”.
Ações desenvolvidas
A EDF trabalhou com foco em 3 pilares principais: gestão de ativos, gestão de backups e continuidade de negócios.
Na gestão de ativos, foi conduzido um inventário para entender tudo o que havia de automação instalada nas plantas. Foi necessário evidenciar, ainda, qual era a maturidade dos itens e o nível de criticidade daqueles equipamentos para a operação, para, assim, buscar as melhorias necessárias para manter a operação sempre disponível. “Precisamos que nossos equipamentos entreguem disponibilidade para gerar energia para o país”, ressaltou Vinícius.
Na gestão de backups, foram apurados quais equipamentos tinham backup e como a EDF iria gerenciá-los. “Quando olhamos para os equipamentos legados, muitos deles não geram arquivos de backup. Mas não é por isso que não teremos um backup daquela configuração”, destacou. Por questões de segurança, todos os arquivos de backup estão nos servidores da EDF. “Eles são criptografados pela nossa equipe para que fiquem ciber-resilientes, são replicados para outro servidor e , depois, , são armazenados na nuvem”.
No pilar continuidade dos negócios, o olhar das equipes é voltado para as ações de recuperação em caso de incidente cibernético. Uma das formas é testar os backups e os sobressalentes para garantir a eficácia dos equipamentos e, ainda, preparar as equipes para a recuperação da operação caso necessário. “Para isso, fazemos testes de bancada, que consideramos fundamentais para aprender, criar os procedimentos e documentar”, completou o engenheiro.
A parceria com a TI Safe também foi citada por Vinícius como sendo de grande importância. “Com o suporte e o conhecimento deles, agregamos força ao nosso time de TO e conseguimos elevar a eficiência na cibersegurança de nossas operações”.
A tríade de segurança operacional da EDF Brasil é composta por tecnologias, pessoas e procedimentos. “Consideramos o pilar pessoas o mais sensível dos três, pois se elas não usarem corretamente as tecnologias e não cumprirem os procedimentos, elas deixarão os ativos e a infraestrutura vulneráveis”, frisou.
Integração TI Safe e EDF Brasil
Felipe Marques, coordenador de Segurança da Informação da TI Safe, participou da apresentação destacando como foi a integração no ambiente da EDF Brasil. Os principais passos foram:
- Avaliação dos riscos no ambiente da EDF Brasil e planejamento para implementação dos firewalls;
- Treinamento FSAI – Formação da Segurança da Automação Industrial, desenvolvido pela TI Safe para ser realizado pelas equipes da EDF;
- Implementação do firewall na EDF Norte Fluminense e criação das regras de segurança;
- Monitoramento 24/7 realizado pela equipe do ICS-SOC (Industrial Control System – Security Operations Center), da TI Safe;
- Política de otimização das regras de segurança, um processo contínuo, realizado pela equipe de arquitetura da TI Safe, e que ocorre periodicamente com o objetivo de melhorar o tratamento de resposta a incidentes;
- Verificação de resposta a incidentes, quando ocorre a coleta de métricas do processo de resposta a incidentes. São realizadas simulações em ambientes de ataque para que as equipes estejam preparadas para fazer a detecção, análise, contenção, erradicação e recuperação do equipamento infectado de forma rápida e assertiva.
Felipe mencionou uma fase muito importante que ocorre após a ocorrência de incidentes. “Fazemos um relatório detalhado, tirando o malware das sombras e compartilhando com o cliente e com outras empresas as lições aprendidas. Assim, contribuímos para a melhoria da segurança cibernética do nosso país”, completou.
A próxima etapa será a implantação do IDS Nozomi no ambiente da EDF Brasil e o treinamento para que o cliente tenha uma visão geral das funcionalidades e possa fazer melhor uso da ferramenta.

Resultados da jornada de cibersegurança operacional na EDF
Garantir segurança cibernética nas operações críticas é um trabalho perene. Enquanto houver operações, será necessário cuidado e aperfeiçoamento contínuo das técnicas e ações.
“Nós já colhemos muitos frutos desde o início da parceria com a TI Safe, há dois anos. Entre eles, podemos citar a adequação à rotina operacional da ONS, equipe mais capacitada e consciente dos riscos e ameaças, maior integração entre as equipes de TI e TO, procedimentos alinhados com as normas nacionais e internacionais e ambiente operacional seguro e monitorado 24/07”, finalizou Vinícius.