Entenda por que esse método é essencial, mas exige outras camadas de proteção.
No ano passado, um grupo de cibercriminosos foi citado em uma investigação do FBI após acessar sistemas críticos de empresas do setor aéreo burlando mecanismos de autenticação multifator (MFA). Os ataques envolviam técnicas de engenharia social aplicadas a help desks e equipes de suporte, permitindo que os criminosos acessassem contas de executivos seniores e infraestrutura corporativa sensível.
Em um dos casos, os invasores se passaram por um diretor financeiro para solicitar a redefinição de MFA, conseguindo entrar remotamente em diversos sistemas internos. A ação do grupo evidencia que muitas abordagens criminosas de sucesso não exigem necessariamente uma falha técnica, mas sim uma brecha comportamental, falta de treinamento ou vulnerabilidades no andamento dos processos internos.
Embora a autenticação multifator (MFA) tenha se consolidado como uma das principais recomendações de segurança para proteção de contas corporativas e seja considerada um avanço significativo em relação ao uso exclusivo de senhas, muitas organizações tratam esse mecanismo como uma solução definitiva para a proteção de identidades digitais. Contudo, na prática, a realidade exige medidas mais complexas.
Quais ameaças a autenticação multifator (MFA) consegue bloquear?
A adoção de soluções de MFA cresceu nos últimos anos impulsionada pelo aumento de ataques baseados em roubo de credenciais, pela expansão do trabalho remoto e pelos requisitos de conformidade presentes em diversos segmentos.
De acordo com dados da CISA (Cybersecurity and Infrastructure Security Agency), agência de Segurança Cibernética e de Infraestrutura dos Estados Unidos, o uso da MFA reduz em 99% a probabilidade de um ataque hacker ser bem-sucedido. No entanto, ainda que reduza riscos importantes e seja uma ferramenta essencial, não elimina todas as formas de comprometimento de contas. Compreender quais ameaças ela bloqueia e quais continuam exigindo camadas adicionais é fundamental para construir uma estratégia de segurança cibernética mais eficaz.
Como funciona a autenticação multifator (MFA)
A MFA adiciona uma etapa ao processo de autenticação. Além da senha, o usuário precisa apresentar outro fator de validação, como um código temporário, uma notificação no aplicativo autenticador, uma chave física de segurança ou um dado biométrico.
Esse mecanismo aumenta significativamente a dificuldade para invasores que obtêm credenciais por meio de vazamentos de dados, ataques de força bruta ou reutilização de senhas.
Quando implementada corretamente, a autenticação multifator dificulta ataques como:
– Uso de senhas vazadas em incidentes anteriores;
– Ataques automatizados de credential stuffing;
– Tentativas de acesso decorrentes de senhas fracas ou previsíveis;
– Comprometimento de contas após vazamentos de bancos de dados externos;
– Parte dos ataques de phishing convencionais que capturam apenas usuário e senha.
Quais ataques conseguem contornar a autenticação multifator?
O aumento da adoção da autenticação multifator levou os criminosos a desenvolver técnicas específicas para burlar esse mecanismo. Ataques cibernéticos mais recentes contornam alguns métodos de MFA utilizados por empresas, como SMS, código OTP e push de aprovação.
Isso não quer dizer que a autenticação multifator é dispensável, mas sim que o método tradicional exige estratégias adicionais de defesa para esse novo cenário cibernético que evolui todos os dias.
Exemplos disso são os ataques conhecidos como Adversary-in-the-Middle (AiTM) e MFA Fatigue. No AiTM, o invasor atua como intermediário entre o usuário e o serviço legítimo, criando uma página falsa que replica com precisão o ambiente original de autenticação. No caso do MFA Fatigue, o invasor realiza inúmeras tentativas de login e dispara sucessivas notificações de aprovação para o dispositivo da vítima que, por distração ou desconhecimento, aprova uma das solicitações.
O que esses dois exemplos têm em comum? Eles mostram que os ataques modernos não quebram a criptografia do método MFA, mas exploram o comportamento humano para ter sucesso.
Quais camadas de segurança complementam a autenticação multifator?
Embora já existam MFA mais resistentes a diversos tipos de ataque cibernético, a estratégia de defesa cibernética completa precisa acontecer em profundidade, com a combinação de múltiplos controles operando em sintonia.
Em relação a tecnologias, uma das medidas mais eficazes é a adoção de métodos de autenticação resistentes a phishing, como passkeys e chaves de segurança baseadas no padrão FIDO2. Esses mecanismos utilizam criptografia assimétrica e dificultam significativamente ataques de interceptação de credenciais.
Considerando o aspecto de processos e comportamento humano, é preciso ampliar as tratativas e o uso de recursos:
– Políticas de acesso condicional baseado em risco, que bloqueiam ou exigem reautenticação de logins anômalos;
– Redução do tempo de vida de sessões e tokens, além de verificação contínua de risco durante a sessão;
– Monitoramento de comportamento de usuários e detecção comportamental por identidade;
– Restrição de acessos por localização, dispositivo ou contexto;
– Proteção e gestão de privilégios administrativos;
– Bloqueio de protocolos legados;
– Treinamento contínuo, com simulações e testes para inviabilizar a exploração do elo humano.
Em relação aos processos internos, procedimentos de suporte técnico, redefinição de credenciais e cadastro de novos dispositivos precisam incorporar verificações adicionais para reduzir os riscos de fraude.
MFA é a solução para os problemas de segurança com senhas?
Em um cenário de ameaças que evolui constantemente, a autenticação multifator tornou-se um requisito mínimo e essencial para aumentar a segurança cibernética de sistemas e infraestruturas que utilizam senhas.
Completar a arquitetura de proteção é a chave, ampliando a cobertura com métodos resistentes a phishing, políticas claras, processos bem definidos, monitoramento contínuo e treinamentos em todas as hierarquias.
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