Autores: Marcelo Branquinho e Plataforma Safer
20/10/2025
Resumo: O avanço da Inteligência Artificial (IA) tem revolucionado o setor de cibersegurança – para o bem e para o mal. Se, por um lado, ela fortalece ferramentas defensivas e aumenta a capacidade de resposta a incidentes, por outro, também vem sendo explorada por grupos maliciosos, incluindo organizações criminosas e atores com capacidades avançadas, para desenvolver ataques cada vez mais sofisticados, evasivos e potencialmente destrutivos.
No contexto das infraestruturas críticas, como o setor elétrico, esse fenômeno adquire uma gravidade ainda maior. Redes de Tecnologia Operacional (TO), responsáveis por controlar diretamente equipamentos físicos como subestações, turbinas, linhas de transmissão e centros de controle tornam-se alvos de grande valor estratégico. A introdução da IA nos arsenais ofensivos dos cibercriminosos aumenta a velocidade, a escala e a complexidade dos ataques, tornando-os mais difíceis de detectar e neutralizar. Ferramentas maliciosas baseadas em IA já são capazes de realizar reconhecimento automatizado de ativos, adaptar-se ao ambiente da vítima, manipular dados de sensores industriais e empregar engenharia social com deepfakes e modelos de linguagem para enganar operadores humanos.
Neste cenário, um dos pilares regulatórios mais relevantes é a RO-CB.BR-01, a Rotina Operacional Cibernética publicada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Publicada em 2021, essa rotina estabelece um conjunto de requisitos mínimos obrigatórios de segurança cibernética para os agentes que atuam no Sistema Interligado Nacional (SIN). Seu objetivo é garantir a confiabilidade, disponibilidade e resiliência do SIN frente a ameaças cibernéticas, protegendo tanto os dados operacionais quanto os processos físicos sob controle digital.
A estrutura da RO-CB.BR-01 foi cuidadosamente construída para incorporar boas práticas técnicas, processuais e organizacionais inspiradas em padrões internacionais, como a série IEC 62443 e o NIST SP 800-82. Ela exige segmentação de redes TO e TI, controle de acessos remotos, inventário de ativos, gestão de mudanças segura (GMUD), resposta a incidentes estruturada, monitoramento contínuo e registro de ações de usuários. Além disso, prevê a formalização de políticas, procedimentos e a designação clara de responsáveis pela segurança cibernética em ambientes operacionais.
Desde sua entrada em vigor, a implementação da rotina tem ocorrido de forma progressiva. Grandes operadores do setor elétrico, especialmente empresas de geração e transmissão de maior porte, já atingiram elevados níveis de conformidade, consolidando SOCs industriais, segmentações robustas e processos maduros de gestão de risco cibernético. Por outro lado, agentes menores ou com menos capacidade técnica e financeira ainda enfrentam desafios importantes, como a integração de sistemas legados, escassez de mão de obra especializada e dificuldades na adoção de ferramentas mais avançadas.
Entretanto, embora a RO-CB.BR-01 represente um avanço inegável na elevação do patamar mínimo de segurança do setor, o surgimento de ameaças potencializadas por IA como ataques com LLMs ofensivas, malware com lógica adaptativa, spear phishing automatizado e manipulação inteligente de sistemas SCADA impõe novos desafios. O que era considerado suficiente em termos de defesa passiva e segmentação estática pode não ser capaz de conter ameaças autônomas que evoluem em tempo real, exploram falhas humanas com alta precisão e burlam controles convencionais sem disparar alarmes.
Nesse sentido, a própria rotina precisa ser vista como um ponto de partida e não como um teto técnico. A complexidade atual exige contramedidas também baseadas em inteligência artificial defensiva, capazes de operar com a mesma agilidade dos atacantes. Ferramentas como SIEMs com análise comportamental (UEBA), orquestração de resposta automatizada (SOAR), sistemas de detecção com machine learning e monitoramento contextualizado tornam-se essenciais para complementar os controles mandatórios da rotina.
É nesse ponto que plataformas como a Safer, desenvolvida pela TI Safe, ganham relevância estratégica. A Safer atua como um copiloto cibernético para sistemas ciberfísicos (CPS – Cyber Physical Systems), oferecendo inteligência contínua baseada em IA, análise de comportamento de usuários e ativos, apoio à decisão técnica durante incidentes, e integração nativa com frameworks como MITRE ATT&CK for ICS. Mais do que uma plataforma, ela representa um avanço conceitual na forma como se lida com riscos cibernéticos industriais: de forma dinâmica, preditiva e contextualizada, indo além da simples conformidade.
Neste artigo, exploramos o uso da IA em ataques cibernéticos contra o setor elétrico e avaliamos se os controles definidos atualmente pela RO-CB.BR-01 são suficientes para enfrentar essa nova classe de ameaças. Concluímos com propostas de complementação da rotina para suas próximas versões, bem como com a apresentação de soluções defensivas inteligentes, como a plataforma Safer, que apontam um caminho viável e moderno para proteger o setor elétrico em um cenário de risco em constante evolução.
Keywords: Inteligência Artificial (IA), Infraestruturas Críticas, Tecnologia Operacional (TO), Sistemas Ciberfísicos (CPS), Ataques Cibernéticos Avançados, RO-CB.BR-01 (ONS), IEC 62443, NIST SP 800-82, Segmentação de Redes, SOC Industrial, Defesa Cibernética Preditiva.