Até pouco tempo atrás, as principais dicas de segurança cibernética ensinavam os usuários a identificar erros de português, remetentes desconhecidos e mensagens com aparência amadora como os sinais mais comuns de fraude. Esse tipo de golpe digital continua existindo, mas uma parcela crescente dos ataques utiliza inteligência artificial, dados vazados e ferramentas corporativas legítimas para aumentar sua taxa de sucesso.
Esses recursos, somados ao uso de uma linguagem adequada ao contexto da empresa-alvo e a informações obtidas previamente sobre processos internos, têm criado fraudes altamente personalizadas e difíceis de detectar.
O resultado é um cenário em que a decisão do usuário depende menos da identificação de sinais visuais evidentes e mais da validação de contexto.
Golpes digitais já são o principal medo dos brasileiros
Com a profissionalização dos crimes cibernéticos, ser vítima de um golpe digital é o principal medo dos brasileiros, de acordo com o relatório Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha.
Os dados assustam: 83,2% da população afirma temer fraudes financeiras via internet ou celular, índice tecnicamente empatado com o medo de roubo à mão armada (82,3%) e de ser morto durante um assalto (80,7%).
Os golpes digitais também foram o tipo de crime mais frequente vivenciado pelos brasileiros nos últimos 12 meses, de acordo com o relatório. Cerca de 16% da população com 16 anos ou mais (mais de 26 milhões de vítimas) foi vítima desse tipo de crime.
Quando esse tipo de incidente acontece em um ambiente corporativo, os impactos ultrapassam a esfera individual. Uma única ação pode resultar no comprometimento de credenciais privilegiadas, interrupção de operações, exposição de informações estratégicas, fraudes financeiras ou abertura de caminho para ataques mais complexos, como ransomware. Em setores de infraestrutura crítica, indústria e energia, uma interação aparentemente simples pode gerar consequências operacionais, financeiras, regulatórias e até reputacionais para toda a organização.
A pergunta que as empresas precisam fazer hoje é: seus colaboradores conseguiriam identificar um golpe que parece legítimo?
Quando o golpe digital chega pelo Microsoft Teams
Plataformas colaborativas, como o Microsoft Teams, passaram a ser alvo de campanhas de phishing e personificação de identidade, explorando chats, chamadas, reuniões e compartilhamento de arquivos. A própria empresa mantém mecanismos para alertar usuários sobre tentativas de fraude e contatos externos suspeitos dentro da plataforma.
Imagine a seguinte situação. Um colaborador recebe uma mensagem pelo Teams de alguém que se apresenta como integrante do suporte técnico. A pessoa usa a identidade de um profissional real da organização, conhece a estrutura interna da empresa e informa que existe um problema urgente que exige acesso remoto ao computador.
O cenário parece hipotético, mas tentativas desse tipo já foram relatadas pela própria Microsoft. Em 2024, a empresa alertou sobre ataques conduzidos por grupos cibercriminosos que utilizavam o Microsoft Teams para se passar por equipes de suporte técnico. Os atacantes entraram em contato com funcionários alegando a necessidade de resolver problemas urgentes de segurança ou de conectividade e, durante a interação, solicitaram o uso do Quick Assist, ferramenta legítima de assistência remota integrada ao Windows. Após obter o acesso ao equipamento, os criminosos avançavam para etapas de movimentação lateral na rede, roubo de informações e implantação de ransomware.
O grande perigo é que a utilização de ferramentas corporativas aumenta a credibilidade do ataque, já que o usuário tende a associar o ambiente de trabalho a um contexto confiável. Por essa razão, procedimentos independentes de validação tornam-se essenciais.
Convites para reuniões que parecem legítimos
Outra técnica crescente consiste no envio de convites para reuniões virtuais.
O usuário recebe uma solicitação para participar de uma videoconferência relacionada a um projeto, contratação, negociação comercial ou assunto financeiro. Durante a reunião, os participantes solicitam acesso a documentos, credenciais ou aprovações de pagamentos.
Em um caso bem conhecido, a multinacional de engenharia Arup confirmou ter sido vítima de uma fraude baseada em videoconferência com uso de inteligência artificial. O caso aconteceu em 2024, quando um colaborador, acreditando estar interagindo com executivos da empresa, realizou transferências financeiras após participar de uma chamada em vídeo manipulada digitalmente. O prejuízo reportado foi de aproximadamente US$ 25 milhões.
O aspecto relevante desse caso não está apenas na tecnologia utilizada, mas na importância de prever processos de validação independentes para procedimentos críticos. Aprovações financeiras, alterações cadastrais e compartilhamento de informações sensíveis não devem depender exclusivamente de uma única reunião ou de um único canal de comunicação.
Deepfakes: quando voz e vídeo deixam de ser mecanismos confiáveis de validação
A popularização de ferramentas de inteligência artificial reduziu drasticamente o custo para criação de clones de voz. Poucos minutos de áudio disponíveis em vídeos, entrevistas, eventos ou redes sociais podem ser suficientes para gerar uma reprodução convincente.
Em 2024, a WPP, um dos maiores grupos de publicidade do mundo, informou que criminosos utilizaram uma combinação de imagem, voz clonada e reunião no Microsoft Teams para tentar se passar pelo CEO da organização.
A empresa de tecnologia LastPass também divulgou uma tentativa semelhante, na qual um colaborador recebeu ligações, mensagens e áudios produzidos por inteligência artificial simulando a voz do diretor executivo da empresa.
De acordo com o relatório Identity Fraud Report 2025-2026, da empresa de verificação de identidade Sumsub, golpes com deepfakes (vídeos, vozes e imagens falsas geradas por Inteligência Artificial) cresceram 126% no Brasil em 2025, evidenciando que voz ou imagem deixaram de ser fatores confiáveis de autenticação para decisões de alto impacto.
Golpe digital é um desafio para as empresas
O desafio atual não está apenas em identificar links maliciosos ou anexos suspeitos. Os ataques exploram relacionamentos, processos internos, confiança organizacional e ferramentas legítimas de comunicação. A tecnologia vem ampliando cada vez mais a capacidade de personificação, enquanto a engenharia social continua sendo o elemento central da fraude.
“A segurança precisa ser tratada como uma disciplina de gestão de risco e não apenas como uma questão tecnológica. Quando os processos dependem exclusivamente da confiança depositada em uma mensagem, ligação ou reunião, a superfície de ataque se amplia significativamente”, destaca Marcelo Branquinho, CEO da TI Safe.
A TI Safe apoia empresas no fortalecimento dos pilares essenciais para a segurança cibernética: pessoas, processos e tecnologia, consolidando essa capacidade por meio de avaliações de maturidade, programas de conscientização, testes de engenharia social, monitoramento de ameaças e estratégias de cibersegurança voltadas para ambientes corporativos e infraestruturas críticas. Com metodologia própria, o iCPS Cybersecurity, a TI Safe utiliza inteligência artificial para transformar grandes volumes de dados em contexto de segurança, permitindo decisões mais rápidas, relevantes e eficazes.
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