A expansão dos ecossistemas digitais dissolveu o conceito tradicional de perímetro de segurança. Organizações passaram a operar em ambientes cada vez mais interconectados, integrando APIs, serviços em nuvem e diversos recursos de terceiros ao longo de suas operações. Nesse modelo, a superfície de ataque deixa de ser contorno interno e passa a ser uma rede contínua de dependências digitais.
O ENISA Threat Landscape 2025, publicado pela European Union Agency for Cybersecurity, analisou 4.875 incidentes entre 1 de julho de 2024 a 30 de junho de 2025, destacando o crescimento de ataques que exploram relações de confiança entre organizações e seus ecossistemas digitais. O relatório evidencia que a interconexão entre sistemas cria “cyber dependencies”, que amplificam o impacto de um único ponto comprometido ao longo de múltiplas organizações.
Nesse contexto, o atacante desloca seu foco do ambiente final para os elos intermediários da cadeia, explorando fornecedores e componentes de software que sustentam os processos de desenvolvimento e operação.
Cadeia de suprimentos como vetor de exploração contínua
Os ataques modernos à cadeia de suprimentos evoluíram de comprometimentos pontuais para exploração sistemática da infraestrutura.
Um dos vetores mais relevantes está nos pipelines de CI/CD, onde credenciais, tokens e segredos operacionais circulam entre ferramentas de build, repositórios e ambientes de publicação. O comprometimento desses elementos permite a inserção de código malicioso em aplicações legítimas antes mesmo de sua distribuição.
Em agosto de 2025, foi identificado um incidente no ecossistema npm (node package manager) envolvendo pacotes amplamente utilizados em fluxos de automação de desenvolvimento. O ataque explorou o processo de publicação via pipelines integrados ao GitHub Actions, permitindo a distribuição de versões adulteradas com potencial de exfiltração de credenciais e segredos de desenvolvedores. O impacto não se restringiu ao pacote em si, mas se estendeu a todos os ambientes que consumiam suas dependências de forma automática.
Em junho de 2026, observou-se a continuidade desse padrão com o comprometimento de pacotes publicados sob o namespace @redhat-cloud-services no repositório npm. Após o comprometimento da conta GitHub de um colaborador da Red Hat, versões maliciosas foram distribuídas por meio de dezenas de pacotes amplamente utilizados em ambientes corporativos. Segundo pesquisadores de segurança, os componentes afetados acumulavam cerca de 80 mil downloads semanais e continham um código capaz de coletar credenciais e outros segredos utilizados em ambientes corporativos. O incidente demonstrou como o comprometimento de um único elo da cadeia de desenvolvimento pode ampliar rapidamente o alcance de um ataque para milhares de ambientes dependentes.
Esse padrão ilustra como uma mudança estrutural: o alvo não é mais o sistema em produção, mas o processo que constrói e entrega o software.
Integrações modernas e o problema da confiança implícita
Ambientes digitais atuais operam com integração contínua entre sistemas internos e externos. Essas integrações são baseadas principalmente em APIs (Application Programming Interfaces), que permitem comunicação automatizada entre aplicações e serviços.
Na prática, APIs funcionam como camadas de interoperabilidade entre ecossistemas digitais, viabilizando troca de dados, autenticação e execução de funções sem intervenção humana.
O problema central não está na tecnologia, mas no modelo de confiança associado a ela. Integrações frequentemente operam com credenciais de longa duração e permissões amplas. Isso cria zonas de confiança implícita, onde tráfego legítimo e malicioso coexistem sem diferenciação clara.
Segundo dados do estudo Cost of a Data Breach Report 2024, da IBM Security, com base em incidentes entre março de 2023 e fevereiro de 2024, violações envolvendo terceiros elevam significativamente o custo médio de incidentes, que ultrapassa US$ 4,88 milhões globalmente. O fator crítico não é apenas financeiro, mas operacional: a presença de múltiplos domínios de responsabilidade aumenta o tempo de detecção e resposta.
O problema não é o parceiro, é a conexão não governada
Um erro recorrente em segurança corporativa é atribuir o risco exclusivamente ao fornecedor. Na prática, o ponto crítico está na forma como a conexão é estabelecida, monitorada ao longo do tempo.
Em ecossistemas maduros, a segurança não depende da confiança no terceiro, mas da capacidade de verificar continuamente seu comportamento e integridade.
Isso exige controles como:
- governança contínua de identidades e acessos
- monitoramento comportamental de integrações e terceiros
- validação contínua de integridade de software e dependências
- segmentação de ambientes críticos e fluxos de comunicação
- gestão de risco baseada em relações e dependências digitais
A ausência desses controles cria zonas de ‘confiança implícita persistente’, nas quais acessos permanecem ativos além do necessário e integrações operam sem validação contínua. Esse é o tipo de condição que o modelo Zero Trust busca eliminar ou reduzir ao máximo, uma vez que o seu princípio central é que nenhum usuário, dispositivo, aplicação ou processo deve ser considerado confiável apenas porque já foi autenticado anteriormente ou porque está dentro da rede corporativa.
Segurança de ecossistema e maturidade operacional
A evolução da cibersegurança corporativa exige uma mudança estrutural: abandonar a visão de ativos isolados e adotar um modelo de governança de ecossistema digital. Nesse modelo, fornecedores e integrações digitais passam a ser tratados como uma única superfície de risco interdependente.
Organizações mais maduras têm adotado práticas como:
- mapeamento contínuo de dependências digitais críticas
- análise dinâmica de riscos de fornecedores e software third-party
- monitoramento de integridade dos pipelines de build e distribuição
- resposta coordenada a incidentes envolvendo múltiplas organizações
- Integração entre segurança, riscos e governança (GCR) em modelo contínuo
Normas como a ISO/IEC 27036 – 2:2022 estabelecem diretrizes internacionais para a gestão de riscos em relacionamentos com fornecedores ao longo de todo o ciclo de vida da relação, incluindo contratação, operação e descontinuação. Essa abordagem reforça um ponto central: segurança em cadeias digitais não é um evento de auditoria, mas um processo contínuo de governança.
Ataques à cadeia de suprimentos não representam exceções operacionais, mas sim uma consequência direta da complexidade dos ecossistemas digitais modernos. À medida que organizações ampliam sua conectividade, também ampliam sua dependência de terceiros e sua superfície de exposição.
Nesse cenário, a segurança não pode mais ser definida apenas pelo perímetro interno, mas pela capacidade de compreender, monitorar e governar toda a rede de relações digitais que sustenta a operação.
O ataque pode não começar dentro da organização, mas frequentemente termina nela.
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