No filme “Um mundo depois de nós”, há uma cena na qual carros autônomos são hackeados e usados para bloquear estradas, causando acidentes. No mundo real, uma vulnerabilidade cibernética permitiu acesso ao recurso de direção autônoma de um Tesla, levando o carro a aproximadamente 137 km/h em uma área cuja velocidade permitida era de cerca de 60 km/h.
Quando o assunto é tecnologia, ficção e realidade podem estar mais próximas do que se imagina. Carros cada vez mais conectados, com sistemas embarcados e aplicações de inteligência artificial estão presentes de forma crescente na sociedade, potencializando os perigos relacionados à cibersegurança veicular.
Um recente estudo da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA) abordou justamente essa questão no White Paper Cybersecurity 2025: os desafios e riscos relacionados à cibersegurança veicular no Brasil.
White Paper Cybersecurity 2025 alerta sobre perigos dos carros conectados
O documento, que tem como objetivo promover maior compreensão sobre o tema da cibersegurança veicular e contribuir com discussões no contexto nacional, reuniu a expertise de especialistas da indústria para tratar da digitalização dos veículos e sua relação com o aumento da exposição a ameaças digitais.
Para a AEA, os automóveis estão se transformando em verdadeiros computadores sobre rodas, comprometendo a segurança dos veículos, ocupantes e de terceiros. Até o final deste ano, estima-se que mais da metade dos veículos em circulação no Brasil tenham algum tipo de conectividade por rádio. A principal aplicação para isso é a Ultra Wide Band (UWB), tecnologia que permite acesso seguro e passivo ao veículo, sem necessidade de ações do motorista.
O estudo enfatiza ainda duas vertentes de segurança que precisam ser observadas pela indústria em veículos conectados: a cibersegurança veicular, que abrange ataques realizados por hackers, e a segurança funcional, que envolve falhas acidentais em sistemas elétricos e eletrônicos.
O estudo alerta ainda sobre:
- Exploração de falhas (nos veículos e nos dispositivos conectados a eles): Invasores podem realizar ações que comprometam freios, direção ou a privacidade de dados dos usuários.
- Ataques a atualizações remotas via internet (over-the-air – OTA): Essa vulnerabilidade permite que hackers alterem softwares, instalando códigos maliciosos ou desativando funções do veículo.
- Exposição causada por interfaces (Bluetooth, Wi-Fi e redes celulares): A integração a smartphones, plataformas de entretenimento e sistemas de navegação aumenta os riscos.
Ataques cibernéticos a carros já foram registrados?
Sim, porém, em formato de teste e sem o objetivo de causar danos a usuários ou terceiros. O próprio ataque hacker ao sistema de direção autônoma do veículo Tesla, citado no início desse texto, não teve intenção de causar danos, apenas alertar a montadora sobre a vulnerabilidade. A invasão foi conduzida por pesquisadores hackers, especialistas em segurança da McAfee, em 2020.
Um jovem alemão de 19 anos também conseguiu chamar a atenção da Tesla, em 2022. Ele hackeou e acessou comandos do sistema de segurança de 25 carros da marca, em 13 países. A falha permitiu ao jovem, que é especialista em tecnologia da informação, abrir as portas e janelas, controlar a central multimídia, conhecer a localização do veículo, checar se o motorista estava no carro e até ligar o veículo.
Outro episódio aconteceu durante uma conferência, em 2021, quando “hackers do bem” abriram, remotamente, as portas de um Tesla, usando um drone. Os invasores em questão eram pesquisadores na área de segurança cibernética e fizeram o ataque para provar que um bug – que havia sido supostamente corrigido, segundo a Tesla – ainda poderia ser explorado.
Situações como essas, assim como outras que constam no histórico na empresa, mantém a montadora em alerta. A Tesla tem como prática premiar hackers que descobrem falhas em seus sistemas de segurança. Ela mantém um programa de divulgação de vulnerabilidades que premia com até US$ 15 mil especialistas em cibersegurança que registrem falhas na segurança dos veículos.
A marca participa também de uma competição anual, chamada Pwn2Own, que desafia hackers a quebrar – de forma monitorada e segura – protocolos de segurança dos sistemas de várias organizações – entre elas Microsoft, NVIDIA e Oracle. Na última edição, realizada na Alemanha, em maio de 2025, mais de US$ 1 milhão em prêmios foram distribuídos entre aqueles que encontraram falhas e conseguiram explorá-las.
Regulamentações para cibersegurança veicular
No Brasil, ainda não existem leis específicas para regulamentar a segurança cibernética em veículos rodoviários. Contudo, a Política Nacional de Cibersegurança (PNCiber), instituída em dezembro de 2023, foi criada para proteger, de forma abrangente, sistemas digitais e dados contra ataques cibernéticos. Por meio de um conjunto de ações e diretrizes, a PNCiber visa fortalecer a segurança da informação e promover uma cultura de cibersegurança no país.
Internacionalmente, alguns marcos normativos e regulamentos internacionais já foram estabelecidos para reforçar a cibersegurança dos veículos conectados. Exemplos disso são os regulamentos para cibersegurança automotiva UNECE R 155 e UNECE R 156. Ambos foram estabelecidos pela ONU, no início de 2021, e tem como objetivos:
– Definir requisitos para a proteção de veículos contra ataques cibernéticos e reforçar a importância da implementação de um Sistema de Gestão de Cibersegurança para o gerenciamento de incidentes (UNECE R 155).
– Garantir a segurança ao longo do ciclo de vida de um veículo por meio da implementação e operação de um Sistema de Gestão de Atualização de Software (UNECE R 156).
Em agosto de 2021, como resultado de uma colaboração entre a Organização Internacional para Padronização (ISO) e a Sociedade de Engenheiros Automotivos (SAE), foi publicada a ISO/SAE 21434, que fornece uma diretriz válida internacionalmente para a implementação de um Sistema de Gestão de Cibersegurança que as organizações podem usar como referência.
A norma tem como objetivo assegurar que veículos rodoviários sejam desenvolvidos com as medidas de segurança adequadas para proteger contra ameaças cibernéticas, permitindo o gerenciamento dos riscos de segurança ao longo do ciclo de vida de um veículo.
A indústria automotiva, assim como as indústrias em geral, estão sob efeito do advento da digitalização: veículos, equipamentos, casas, dispositivos estão se tornando mais inteligentes, conectados e eficientes. Como consequência, as aplicações tecnológicas aumentam o risco e a magnitude de ataques cibernéticos.
Nesse sentido, a sinergia entre pesquisadores, desenvolvedores e fornecedores de soluções de segurança cibernética na busca por estratégias de defesa robustas é fundamental para um mundo cada vez mais conectado e seguro para todos.